A repercussão do caso envolvendo a bactéria Acinetobacter baumannii em uma unidade neonatal no Rio Grande do Sul reacendeu dúvidas sobre infecção hospitalar, segurança assistencial e risco de transmissão. Diante desse cenário, a Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Sul (SPRS) esclarece que se trata de um agente oportunista, mais associado a infecções em pacientes críticos, especialmente em unidades de terapia intensiva, onde há maior uso de dispositivos invasivos e permanência prolongada.
O caso veio à tona na manhã desta quarta-feira, 22/04, e ocorreu na UTI Neonatal do Hospital Fêmina, em Porto Alegre, onde um bebê extremamente prematuro, de 26 semanas de gestação, veio a falecer, após testar positivo para a bactéria. Na unidade, 34 pacientes estavam internados e quatro tiveram resultado positivo. O micro-organismo é classificado como pan-resistente, ou seja, não responde aos antibióticos disponíveis, e está entre os patógenos prioritários da Organização Mundial da Saúde (OMS) devido ao impacto e à dificuldade de tratamento.
Segundo o infectologista pediátrico associado da SPRS, Derrick Alexandre Fassbind, a bactéria pode ser encontrada no ambiente, inclusive em locais com água e umidade, mas tende a causar infecção principalmente em pessoas com maior fragilidade clínica. Em pacientes saudáveis, o risco é baixo. Já em ambientes hospitalares, especialmente em UTIs adulto, pediátrica e neonatal, encontra condições propícias para colonizar equipamentos e superfícies, o que exige protocolos rigorosos de prevenção e controle.
“O Acinetobacter baumannii é uma bactéria oportunista, que encontra maior chance de causar infecção em pacientes muito vulneráveis, como recém-nascidos prematuros extremos, pessoas com imunidade reduzida e pacientes em estado crítico que dependem de ventilação mecânica, sondas e cateteres. Nessas situações, o risco não está na circulação comunitária, mas no ambiente hospitalar, onde há necessidade de vigilância contínua, higiene rigorosa das mãos, desinfecção de superfícies e uso adequado de protocolos assistenciais”, explica o médico.
Segundo o especialista, as UTIs neonatais reúnem uma combinação de fatores que torna esse cuidado ainda mais complexo. Os bebês internados nesses setores, em geral, nasceram prematuros ou apresentam complicações importantes relacionadas ao nascimento, o que significa um organismo ainda imaturo, com menor capacidade de defesa e necessidade frequente de suporte intensivo. Além disso, permanecem internados por longos períodos e demandam manipulação constante por diferentes profissionais de saúde, com a presença fundamental da mãe no processo de cuidado e recuperação.
O presidente da SPRS, Marcelo Pavese Porto, destaca que é fundamental considerar o contexto clínico desses pacientes. “É importante frisar sempre que bebês prematuros extremos, como esse que não resistiu, apresentam um risco naturalmente maior em função da imaturidade imunológica e de todas as possíveis complicações inerentes à própria prematuridade”, afirma.
Nesse contexto, a prevenção depende de uma rotina técnica rigorosa e permanente. Medidas como higiene das mãos, limpeza adequada de equipamentos, desinfecção de superfícies, isolamento quando necessário e monitoramento contínuo dos casos são indispensáveis para conter a disseminação em unidades críticas. Em situações de surto, essas ações precisam ser intensificadas, já que a erradicação da bactéria do ambiente hospitalar pode ser mais difícil.
A SPRS também ressalta que não há indicação de risco para a população em geral fora do ambiente hospitalar. A preocupação maior está concentrada em pacientes internados, especialmente os mais vulneráveis, e no cumprimento rigoroso dos protocolos de controle de infecção.
O esclarecimento técnico é fundamental para evitar alarmismo, combater a desinformação e contribuir para uma compreensão mais precisa sobre o que deve ser feito em situações como esta.
Redação: Marcelo Matusiak
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