A pediatria contemporânea exige respostas cada vez mais amplas para desafios que atravessam consultórios, emergências, escolas, famílias e políticas públicas. Da inteligência artificial à hesitação vacinal, da saúde mental de adolescentes ao manejo de urgências, o primeiro dia do Congresso Gaúcho de Atualização em Pediatria mostrou que cuidar de crianças e adolescentes hoje envolve atualização científica, escuta qualificada e capacidade de decisão em cenários complexos.
A programação desta quinta-feira (21/05) reuniu especialistas de diferentes áreas no Centro de Convenções do Barra Shopping, em Porto Alegre, em uma agenda marcada pela diversidade de temas e pela conexão direta com a prática diária dos pediatras. Ao longo do dia, conferências, mesas-redondas, simpósios e discussões de casos clínicos abordaram questões que impactam diretamente a assistência à infância e à adolescência, reforçando o papel da Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Sul (SPRS) na qualificação permanente da especialidade.
Programação ligada a temas da atualidade na pediatria
A primeira conferência do dia abordou a presença da inteligência artificial na rotina dos profissionais de saúde. O palestrante Eduardo Seelig Hommerding (RS) destacou dados de uma pesquisa realizada em 2016, que apontou que 78% dos profissionais já utilizavam IA no dia a dia, sendo 23% de forma diária.
O avanço ocorre em meio a uma realidade de sobrecarga: para cada 1h de atendimento ao paciente, médicos dedicam cerca de 2h a prontuário e burocracias, além de mais 1h a 2h à noite, no chamado “pajama time”, termo usado para descrever o tempo que médicos dedicam, fora do horário de trabalho e muitas vezes à noite, ao preenchimento de tarefas administrativas.
A mesa-redonda sobre emergência pediátrica, conduzida por Evandro Mulinari (RS), discutiu decisões difíceis em ambientes de urgência. Luiza Foschiera (RS) alertou que a decisão entre internar ou conduzir uma alta segura precisa considerar a gravidade do quadro, os protocolos clínicos, a realidade da instituição e o contexto familiar da criança.
“Em casos selecionados, quando a criança está em bom estado geral e os exames são favoráveis, os protocolos mais recentes permitem uma abordagem um pouco mais conservadora. Isso não significa reduzir cuidado, mas usar melhor os recursos disponíveis, organizar os fluxos e garantir que cada decisão seja adequada ao risco real do paciente”, destacou a palestrante Luiza Foschiera.
A alta hospitalar, nesse contexto, não pode ser entendida como encerramento do cuidado. Ela deve ser planejada, explicada à família e acompanhada de orientações claras sobre sinais de alerta, evolução esperada e momento adequado para retorno, quando necessário.
Aline Medeiros Botta (RS) tratou do uso racional de exames e antibióticos sob pressão familiar. Em sua manifestação, a médica destacou que as emergências pediátricas têm recebido, cada vez mais, pacientes que poderiam ser avaliados em outros pontos da rede de cuidado. São casos de quadros virais iniciais e situações de baixa complexidade, que poderiam ser acompanhados em unidades básicas, consultórios médicos ou aguardar um pouco mais, desde que houvesse orientação adequada à família.
Patrícia Miranda do Lago (RS) falou sobre comunicação de más notícias em ambiente de urgência, ressaltando a necessidade de acolhimento, objetividade e respeito em situações críticas.
“Na urgência, a comunicação de uma má notícia precisa ser direta, humana e cuidadosa. O protocolo SPIKES segue sendo uma referência importante porque ajuda a organizar esse momento, mas ele não deve ser usado como uma receita pronta. Cada família tem uma história, uma cultura e um tempo próprio para compreender o que está acontecendo”, afirma a médica Dra. Patrícia Miranda do Lago.
A programação também contou com simpósios satélites sobre temas frequentes da prática pediátrica, como manejo da diarreia, TDAH na infância, baixa estatura e acondroplasia, com exposições de Cristina Targa Ferreira, Sócrates Salvador e Rita de Cássia Silveira.
Vacinação
Um dos destaques do dia foi o talk show “Novas vacinas e hesitação vacinal: como mudar esse cenário?”, com Juarez Cunha, Marcelo Comerlato Scotta e Benjamin Roitman. O debate tratou de novas plataformas vacinais, atualizações de calendário, vacinas especiais e estratégias para enfrentar a queda nas coberturas.
O médico Juarez Cunha destacou que a hesitação vacinal ocorre quando, mesmo com vacina disponível, gratuita, recomendada e respaldada por sociedades científicas, parte da população atrasa ou deixa de se imunizar. Ele citou a Covid-19 como exemplo de falsa sensação de segurança diante da menor percepção de risco.
“Houve uma fadiga muito grande da doença e da vacina, mas isso não significa que o problema deixou de existir. A doença continua causando internações, inclusive em crianças, e por isso a vacinação segue sendo uma medida importante de proteção”, afirmou Juarez Cunha.
O médico Marcelo Comerlato Scotta lembrou que a hesitação vacinal não é recente, mas ganhou novas formas de circulação com as redes sociais. Segundo ele, conteúdos alarmistas e conspiratórios ampliam a desconfiança e influenciam a percepção de risco das famílias.
“A hesitação vacinal não é nova. O que muda hoje é a forma como essa desconfiança circula e ganha força. As redes sociais passaram a ter um papel importante nisso”, afirmou Marcelo Comerlato Scotta.
O médico Benjamin Roitman ressaltou que a segurança das vacinas segue sendo monitorada mesmo após a aprovação e a entrada no calendário. Ele explicou que eventos adversos inusitados devem ser notificados à vigilância, permitindo acompanhamento contínuo.
“Não é porque a vacina passou pelas fases de estudo e entrou no calendário que o controle termina. Esse acompanhamento segue acontecendo”, afirmou Benjamin Roitman.
Adolescência
A adolescência em situação de risco também recebeu atenção especial na mesa-redonda moderada por Lilian Day Hagel. O painel reuniu discussões sobre diversidade de gênero, risco suicida, anorexia e transtornos alimentares, com participação de Claudia Szobot, Priscila Coelho Amaral e Camila Morelatto de Souza.
Cláudia Szobot destacou que o apoio familiar é essencial no cuidado de crianças e adolescentes trans. Segundo ela, a transição deve começar no ambiente familiar, com acolhimento das pessoas mais próximas e orientação clara sobre como o filho ou a filha deve ser tratado. Sem respeito em casa, alertou, aumentam os riscos de distanciamento, vida paralela e exposição à violência.
Priscila Coelho Amaral destacou que o sofrimento mental entre adolescentes tem aparecido com frequência crescente nos atendimentos pediátricos. A médica apresentou dados dos Estados Unidos que apontam aumento relativo de 163,2% nas hospitalizações pediátricas por autolesão ou tentativa de suicídio entre 2009 e 2019. Também citou que, no Brasil, o suicídio foi identificado como a quarta principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, atrás apenas de lesões no trânsito, tuberculose e violências interpessoais.
“Quem atende adolescentes, seja no consultório privado, seja nos serviços de saúde, percebe que os casos de sofrimento mental têm aumentado. Não estamos falando de algo distante ou raro, mas de uma realidade que chega cada vez mais à rotina da pediatria e precisa ser reconhecida com seriedade”, afirmou Priscila Coelho Amaral.
Os transtornos alimentares têm aparecido com mais frequência entre crianças e adolescentes, exigindo atenção das famílias, das escolas e dos profissionais de saúde. Em sua fala, Camila Morelatto de Souza destacou que estudos comparando diferentes períodos mostram aumento expressivo desses quadros nas últimas décadas, com impacto ampliado após a pandemia, que funcionou como fator de risco para muitos pacientes.
“ Em 2019, já se estimava um número muito elevado de pessoas afetadas, e a pandemia acabou agravando esse cenário, tanto pelo maior risco de sofrimento emocional quanto pelo aumento dos diagnósticos. São quadros que costumam aparecer ainda cedo, muitas vezes por volta dos 12 anos, e precisam ser identificados com cuidado para que o tratamento comece o quanto antes”, destacou Camila Morelatto de Souza.
No fim da tarde, Tadeu Fernando Fernandes conduziu o simpósio sobre manejo das infecções das vias aéreas superiores, com ênfase em intervenção precoce e decisão terapêutica baseada em evidências. A sessão de casos clínicos interativos, moderada por Luciano R. Guerra, aproximou diferentes especialidades em torno de situações envolvendo febre, hipóteses diagnósticas e doença bacteriana.
A programação avançou ainda para temas de atendimento imediato e situações críticas. Na sessão “Direto ao ponto”, moderada por Debora Hendler Gava, Julia Vieira abordou o atendimento ao paciente queimado, enquanto Ana Paula Pereira da Silva tratou do primeiro atendimento ao trauma.
O dia foi encerrado com mesa-redonda sobre nutrição e esporte na infância, com discussões sobre suplementação, necessidades nutricionais da criança fisicamente ativa, RED-S e tríade da atleta.
O evento continua nesta sexta-feira com temas de grande impacto para a saúde infantil, como pediatria ambiental, mudanças climáticas, enchentes e eventos extremos, doenças respiratórias, asma, urgências pediátricas, vacinação meningocócica, prevenção do VSR, manejo da dor, acidentes na infância e emergências onco-hematológicas.
Mais informações podem ser obtidas no site www.gauchopediatria.com.br .
Redação e fotos: Marcelo Matusiak e Juliana Matusiak
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