A 1ª Jornada de Desenvolvimento Infantil Prof. Ricardo Halpern reuniu, nesta sexta-feira (21/08), no Teatro Unisinos, em Porto Alegre, pediatras e profissionais de diferentes áreas da saúde para discutir os principais desafios atuais relacionados ao desenvolvimento infantil. Promovido pela Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Sul (SPRS), o primeiro dia do encontro abordou temas como formação em Pediatria do Desenvolvimento, atrasos de linguagem, avaliação clínica, fatores de risco e proteção, diagnóstico diferencial e novas evidências sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), além das estratégias de intervenção multiprofissional. A programação também foi marcada pela homenagem ao pediatra Ricardo Halpern e pela valorização de uma abordagem integrada, baseada em evidências e voltada à identificação e intervenção precoces.
O futuro da Pediatria do Desenvolvimento
Durante a palestra “Pediatria do Desenvolvimento – Presente e Futuro”, o pediatra do desenvolvimento, Dr. Marcio Leyser, apresentou um panorama histórico da área e comparou a realidade brasileira com a dos Estados Unidos e de outros países, destacando os desafios relacionados à formação de especialistas e à capacidade de atendimento. Entre os dados apresentados, chamou a atenção para a escassez de profissionais nos EUA, onde, em 2023, havia apenas um subespecialista em Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento para cada 100 mil crianças, segundo estudo publicado no Journal of Developmental & Behavioral Pediatrics.
“A demanda por avaliação e acompanhamento do desenvolvimento infantil cresce, enquanto a formação de especialistas não acompanha essa necessidade. O futuro passa necessariamente por ampliar a capacitação dos pediatras, fortalecer o trabalho multiprofissional e encontrar modelos que permitam levar esse conhecimento a um número maior de crianças e famílias”, afirmou o palestrante, Dr. Marcio Leyser.
Atrasos de linguagem
Dados de 2023 do Ministério da Saúde apontam que 12% das crianças apresentam algum atraso no desenvolvimento. Entre elas, alterações relacionadas à fala, à linguagem e à comunicação são frequentes e exigem avaliação cuidadosa para diferenciar condições como o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o Transtorno do Desenvolvimento da Linguagem (TDL) e os transtornos dos sons da fala.
“O TEA tem prevalência em torno de 3%, enquanto o TDL chega a cerca de 7% e os transtornos dos sons da fala podem atingir de 8% a 9%. Por isso, o diagnóstico diferencial é tão importante. Ainda vemos crianças diagnosticadas de forma equivocada com TEA quando, na verdade, apresentam TDL, que é uma condição diferente e exige uma abordagem específica”, destaca a fonoaudióloga Letícia Ribas.
Relação mãe e bebê emociona plateia
Renato Santos Coelho emocionou a plateia ao relatar o caso de uma mãe que havia enfrentado uma perda gestacional e, meses depois, teve outro filho. Durante o acompanhamento, o bebê apresentava episódios frequentes de choro, que coincidiram com o período de um ano da perda anterior.
“Estávamos exatamente a um ano da perda. Foi uma consulta com efeito terapêutico, pois, um mês depois, os choros desapareceram”, relatou Renato Santos Coelho.
Avaliação clínica
Em uma das primeiras abordagens do dia, Márcio Leyser destacou a importância de diferenciar atraso, dissociação e desvio no desenvolvimento infantil. Segundo o especialista, observar como a criança adquire habilidades em diferentes áreas ajuda a identificar padrões específicos e contribui para uma avaliação clínica e um diagnóstico mais precisos.
Instrumentos de Triagem/Vigilância
Mesmo quando há necessidade de encaminhamento para uma equipe multiprofissional, o pediatra continua tendo papel importante no acompanhamento da criança, tanto na avaliação do desenvolvimento quanto na investigação do diagnóstico.
“Essa criança pode precisar da intervenção de outros profissionais, como o fisioterapeuta, mas o pediatra pode e deve continuar acompanhando e pensando no diagnóstico”, destacou a pediatra Simone Sudbrack.
Homenagem a familiares de Ricardo Halpern
A homenagem ao professor Ricardo Halpern também ganhou um significado especial com a entrega de uma placa a familiares. A filha, Fernanda Halpern, destacou a emoção da família ao ver sua trajetória profissional e pessoal sendo lembrada por colegas e amigos. Para ela, o legado deixado pelo pediatra está não apenas no trabalho desenvolvido ao longo da vida, mas também nos vínculos e nas relações que construiu.
“Esses momentos sempre são difíceis porque nos lembram a falta dele, mas também é muito bonito vê-lo sendo celebrado e lembrado, perpetuando tudo o que construiu durante a vida. Ele sempre investiu muito na carreira, no trabalho, nos vínculos e nas relações. Só temos a agradecer por tantas histórias e por saber que muitas outras pessoas poderão seguir conhecendo esse legado por meio de todos vocês”, afirmou.
História natural do Desenvolvimento
O pediatra Álvaro Leite destacou dois conceitos fundamentais para a compreensão moderna do desenvolvimento infantil: a variabilidade individual e a plasticidade. Segundo ele, cada criança responde de maneira própria aos fatores biológicos e ambientais, e o desenvolvimento não deve ser entendido como um processo rígido ou imutável.
“Cada criança é única na forma como responde aos fatores inatos e ambientais. Ao mesmo tempo, as influências sobre o desenvolvimento não são determinísticas. Intervenções biológicas e comportamentais contínuas podem moldar, aumentar ou amenizar os resultados ao longo do tempo”, destacou Álvaro Leite.
Na sequência, a mesa-redonda sobre fatores de risco e proteção ao desenvolvimento infantil reuniu diferentes perspectivas sobre aspectos que podem interferir no crescimento saudável de crianças e adolescentes. Moderada pela Dra. Simone Sudbrack, a atividade contou com o Dr. Ricardo Sukiennik, que abordou fatores de risco neurobiológicos; o Dr. Renato Santos Coelho, com foco nos fatores socioambientais; o Dr. Alvaro Leite, que tratou da promoção da saúde e do desenvolvimento; e o Dr. José Paulo Ferreira, que apresentou orientações sobre tempo de tela, higiene do sono e estabelecimento de limites.
TEA: novas evidências
A programação da tarde começou com a palestra “TEA: novas evidências”, conduzida por Márcio Leyser. A apresentação abordou avanços recentes relacionados ao Transtorno do Espectro Autista (TEA), com destaque para a investigação diagnóstica e o papel dos testes genéticos. Entre os pontos apresentados, o especialista destacou evidências que apontam o sequenciamento de exoma ou genoma como teste de primeira ou segunda linha em situações específicas de atraso do desenvolvimento, deficiência intelectual e TEA com achados sindrômicos.
Durante sua participação, a dra. Alessandra Pereira alertou para o custo dos erros no diagnóstico do TEA. Enquanto os falsos positivos podem gerar sobrecarga sobre famílias e serviços de saúde, os falsos negativos representam a perda de uma janela importante para intervenções precoces, atrasando o acesso da criança ao suporte adequado.
Diagnóstico diferencial de TEA x TDL
A convidada Ananda Ramos Pereira abordou o diagnóstico diferencial entre o Transtorno do Desenvolvimento da Linguagem (TDL) e o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Entre os aspectos destacados estão diferenças na interação social, atenção compartilhada, comunicação não verbal, brincadeira simbólica e presença de comportamentos repetitivos. No TDL, habilidades de interação e comunicação não verbal tendem a estar preservadas, enquanto no TEA podem apresentar prejuízos, reforçando a importância de uma avaliação criteriosa para o diagnóstico adequado.
TEA na adolescência
Ao abordar o diagnóstico tardio do TEA na adolescência, a Dra. Amanda Colognese Pelizzer destacou que, ao revisar a história da criança e até vídeos de anos anteriores, muitas vezes é possível identificar traços que já estavam presentes, mas sem prejuízos suficientes para um diagnóstico naquele momento. “Muitos desses casos chegam ao consultório sem que a gente consiga fechar o diagnóstico de imediato. Mesmo assim, é preciso acompanhar, intervir e tratar aquilo que já está presente”, explicou
Intervenção Multiprofissional em TEA e outros Transtornos do Neurodesenvolvimento
A programação da tarde avançou sobre as diferentes estratégias de intervenção nos transtornos do neurodesenvolvimento. A Dra. Alessandra Pereira apresentou os princípios da intervenção comportamental, abordando linhas gerais, intensidade e métodos. Na sequência, a mesa-redonda sobre intervenção multiprofissional em Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outros transtornos do neurodesenvolvimento, moderada pelo Dr. Renato Santos Coelho, reuniu a fonoaudióloga Ananda Ramos Pereira, com o tema neuromodulação; a fonoaudióloga Bruna Sant’Anna, que tratou de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) e linguagem; Thais dos Reis Bueno, com abordagem sobre ABA e Denver; e Angela Grassioli, que discutiu instrumentos de testagem, especificidade e sensibilidade.
Programação - Sábado
No sábado (22/08), a programação será dedicada ao Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e à intervenção multiprofissional nos transtornos do neurodesenvolvimento. Pela manhã, especialistas discutirão avaliação clínica, critérios diagnósticos, instrumentos, diagnóstico diferencial, psicoeducação e tratamentos comportamental e farmacológico. À tarde, o foco será a avaliação multiprofissional, com contribuições da Fonoaudiologia, Psicologia, Terapia Ocupacional e Pediatria do Desenvolvimento, além da troca de experiências sobre o trabalho integrado entre diferentes áreas.
Redação e fotos: Marcelo Matusiak
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